quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Capítulo 3 - O Pequeno Rei do Vento
O garoto corria enquanto correntes de ar passavam por sua cabeça e as rajadas num vai e vem indicavam que os guerreiros do vento o procuravam por ele.
Ele era esperto, sabia que podia ir mais rápido, que podia flutuar, voar, tentar ir pra longe num pensamento, mas preferia ser cauteloso e não usar suas técnicas, ficando assim o mais escondido possível.
Sua mente voltava a um passado recente:
- Filho, sabe qual é nossa maior fraqueza, nosso único ponto fraco? - Era voz suave do Rei Falcão que falava com o pequeno príncipe.
- Não consigo imaginar que nosso povo tenha fraquezas meu pai. - Respondeu o garoto, muito seguro de si.
- Então, meu fiho, essa é uma das nossas fraquezas, nosso excesso de confiança, nossa incapacidade de perceber que qualquer ser do universo é como uma balança e não existem características que não tenham alguma compensação, algum ponto negativo ou positivo. O Universo, Henrique, foi feito pra se equilibrar e harmonizar, quando um força desequilibra a balança, outra surge para colocar as coisas no seu devido lugar. Dessa forma nada é invencível, nada é indestrutível e nós não vivemos pra sempre do mesmo jeito.
Olhe no horizonte, Henri... - Deslizou com as mãos o Rei e trouxe com ela o campo de visão da sacada do palácio. Lá era um dos poucos pontos do planeta com visão privilegiada, acompanhando os desertos do vento e as florestas de ar.
- Veja meu filho, como trabalhamos para que essa nossa casa fosse harmonioza, para que não tivéssemos guerras, nem entre nós mesmos, nem com outros povos. Aprendemos a viver assim. Mas temos que tomar cuidado com nossas decisões para o futuro. Em alguns momentos, mesmo sabendo que podemos ir longe, que temos poder para mais e mais, precisamos ir devagar, ser suaves, como uma leve briza, diminuir o ritmo. Nenhuma ação deve ser realizada sem um planejamento. - Olhou para o filho que estava completamente hipnotizado pelas palavras do pai e voltou a questioná-lo:
- Mas te perguntei então nossa maior fraqueza e te respondo: Nossas habilidades requerem movimentos rápidos e nossos movimentos deixam marcas. O nossos mais fortes guerreiros também são aqueles mais facilmente evitáveis, pois anunciam sua chegada com o movimento que causam no ar. Se um dia precisar se esconder, se um dia nossa paz acabar e eu não puder te proteger mais, você deve saber o que fazer. O vento não deve ser jamais combatido, o vento deve ser evitado. Portanto para enfrentar guerreiros de vento, você deve não usar o vento, mas sim ser indetectável, deve deixar o vento passar.
O pai muito provavelmente já previa o que estava por vir.
O garoto ainda estava abalado pela passagem para outro mundo de seu pai, assassinado na sua frente, mas ele precisava ser forte agora mais do que nunca, seguir os ensinamentos do Rei e deixar o vento acabar. Não podia acreditar como o General-maior do Vento pôde trair seu pai. Precisava procurar alguém que pudesse lhe guiar, dar respostas. Esse alguém em sua cabeça só poderia ser o velho ancião da floresta de ar.
Precisava saber o que fazer pois muitos que ajudaram em sua fuga ainda corriam perigo no palácio, não podia ficar muito tempo se esgueirando pelas frondosas árvores. Mas tinha que continuar sendo cuidadoso e não criar túneis de vento para voar.
Pensava na sua ama que conseguiu colocá-lo em uma máquina de energia, para que ele pudesse ser atirado pela bomba de ar e fugisse. Nessa altura ela já poderia ter sido descoberta por ter ajudado o garoto. Teria ela feito a passagem pra outro mundo como eu pai?
E sua mãe que ainda estava nos círculos estelares das águas e ainda não sabia de nada o que acontecera.
De repente uma corrente de vento o acertou, todo o caminho que ele tinha feito começou a ser aberto entre as árvores. Ele seria encontrado. Pensou rápido e começou a fazer os movimentos que tinha treinado de oclusão, força do vento contrária no centro do túnel de vento e com a outra mão força equivalente a favor do vento que o atingia. Pressionou os pés na terra de forma bem firme e lutou com todas as suas forças contra o vento. Logo sentiu o vento diminuindo e ele também foi parando, já quando estava quase sem forças. O guerreiro não percebera ele alí, a noite não o revelou. Jamais um soldado poderia imaginar que um garoto poderia permanecer no chão recebendo uma rajada de vento. Mas a equipe de busca continuava procurando por ele. Quando ele já estava quase sem energia para continuar, pensando em desistir, começou a ouvir passos se aproximarem. Será que um guerreiro decidiu fazer a busca no solo? Ele sabia que já não tinha como lançar qualquer técnica de vento então quando viu a sombra se aproximar não pensou duas vezes e disparou um soco.
O velho atingido pulava como um macaco entre os galhos, murmurava uns gemidos de dor, provavelmente por não querer chamar a atenção.
- Moleque! Você quase quebrou meu nariz, seu fedelho! E eu aqui querendo te ajudar! - Disse o velho quase que num ritual de amaldiçoamento.
- Senhor Ancião, me desculpe, não podia imaginar, achei que fosse um dos soldados que estão me persseguindo. - Respondeu o príncipe.
- Tudo bem, tudo bem, vamos, minha cabada está logo ali! - Apontou o velho que ainda esfregava o nariz com movimentos que pareciam machucar mais do que o próprio soco.
Andando mais um pouco o velho apontou um buraco próximo a uma árvore e disse:
- É ali!
- Só estou vendo um buraco! - Questionou cético o garoto.
- Esses jovens nunca sabem que as coisas nem sempre são o que parecem... - Lamentou o velho empurrando o garoto no buraco.
Ele até tentou evitar, mas o buraco puxou ele que começou a cair em algo que parecia um poço sem fim, muito escuro. Até que num estalo ele teve a queda diminuída por uma rajada de ar e foi colocado em pé no fundo do poço escuro, em seguida o velho chegou junto dele.
- Acenda! - Disse o velho e então o que parecia o fundo de um poço se iluminou como um casarão enorme feito de algo que parecia madeira. A sala tinha uma lareira e algumas poltronas flutuantes, uma escada levava para outros cômodos.
- Que lugar incrível - Disse o garoto.
- Bem vindo a minha cabana, oh, Pequeno Rei do Vento! - Recepcionou o ancião com meio sorriso no rosto.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Capítulo 2 - O Despertar da Morte

O despertar da morte
O vento me levava pra longe e eu voava, literalmente, mas não conseguia controlar pra onde ir. Apenas via uma vastidão branca como nuvens passando por mim numa velocidade incrível e sentia o ar se deslocando pelo meu rosto? Essa constatação me fez pensar: Será que eu morri? Onde estou? O tiro! Mas sinto meu corpo, estou respirando e até onde consigo perceber não tenho ferimentos. A sensação de queda de repente começou a tomar conta do meu corpo e cada vez mais forte. Tinha certeza que se em algum momento eu tocasse o chão, eu iria me destruir na queda, sentia como se fosse um corpo celeste, prestes a queimar rasgando o ar. E como eu esperava, atingi o chão com uma pancada espetacular. A dor foi descomunal, meus gritos pareciam ir e voltar aos meus ouvidos num eco contínuo. Mas em poucos segundos tive forças para me levantar e nada havia acontecido comigo, o chão sofrera apenas algumas rachaduras.
Mas que lugar era esse? Um imenso deserto onde não se via horizonte com um chão liso e que parecia feito de cimento. Uma ventania soprou meu rosto e me fez fechar os olhos. Quando abri cai no chão novamente, só que agora de susto. Um homem surgiu a minha frente também trazido pelo vento. Sua aterrissagem foi muito mais sutil que a minha.
- Seja bem-vindo, como te chamas? - Perguntou ele.
- Não sei muito mais de nada. Se minha memória não me engana, meu nome é Magno. - Respondi confuso.
Mas aos poucos fui tomando mais consciência das coisas e prestando mais atenção em tudo. Aquele homem era um senhor de mais idade, cabelos e barba grisalhos e uma aparência amigável. Continuou a falar:
- Magno, tua confusão é plenamente normal, mas teu entendimento e aceitação da partida de sua última vida parece muito bom. Eu me chamo Nazerith. Percebestes que ia morrer segundos antes, não é mesmo? Sentiu a morte?
- Então eu morri mesmo? Sim, eu senti, mas não tinha assimilado ainda. Que coisa maluca! E onde estou? Aqui é uma espécie de julgamento? Não tem cara de céu, nem de inferno!
- Hummmm, que interessante. Muito provavelmente deves ter vindo da Terra, correto? Os terráqueos tem algumas teorias bem interessantes do pós-vida!
- Estou num outro planeta? O que é isso? Tele transporte? Não morri?
- Magno, aprenderás tudo com calma! Pode-se dizer que sim, o que considera como morte seja uma espécie de tele transporte. Mas percebas que essa é uma outra vida na qual você carrega suas memórias e seu amadurecimento espiritual te faz encarnar fisicamente com alguma aparência que já tenha tido em algum momento da vida anterior, o que você deve entender como "idade". Logo entenderás melhor! Mas por enquanto, me acompanhe!
- Mas pra onde? Não vejo nada no horizonte, pra nenhum lado!
- Primeira lição! Pare de enxergar a vida como antes. Mude sua visão das coisas quando elas te parecerem impossíveis. Já deveria ter aprendido isso.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, fui carregado pelo vento com uma força gigantesca e novamente atingi o chão.
- Quando o vento te levar, não lute contra ele, deixe ele fluir por você para poder controlá-lo. - Disse o velho com um sorriso no rosto parecendo se deliciar com mais um tombo dolorido que sofri. Ao levantar vi um lugar magnífico, ali sim eu poderia chamar de Paraíso, mas não o clássico das nossas imagens que conhecíamos, das pinturas do Jardim do Éden. Prédios de arquitetura totalmente impressionantes, inacreditável que podiam se manter em pé. Pareciam flutuar. As cores com poucos tons de verde claro eram predominantemente brancas e cinzas, mas tudo grandiosamente espetacular.
Uma praça com um chafariz de vento que transformava de tempos em tempos a decoração a sua volta. E atrás dela o prédio flutuante, o único que não tinha nenhuma ligação com o chão. Seu acesso só podia ser realizado através de um local demarcado onde o vento transportava a pessoa até a entrada no meio do prédio.
A sensação de andar por baixo de um prédio flutuante até o ponto de entrada não era das mais confortáveis. Nazerith não segurava a risada da minha cara enquanto eu olhava pra cima.
Entramos no prédio, voando pelo vento e foi então que eu descobri que lugar era aquele.
- Isso é uma escola? – Perguntei ao ver diversas pessoas em círculos distintos, cada grupo voltando sua atenção para uma única pessoa a frente de cada, que a sua maneira explicava alguma coisa. Tanta coisa pra se ver ao mesmo tempo que não sabia distinguir o que acontecia em cada. O espaço não parecia ter limites, aparentemente estávamos num local a céu aberto e não num prédio. Não haviam salas, não se via paredes, a gravidade parecia nem existir. Me sentia estranho andando e não flutuando. Reparei que alguns grupos treinavam algo que parecia uma luta de ventos. Outros ficavam parados sem se moverem por nada, quase meditando.
- Aqui é uma Zona Livre, é um espaço que parece infinito, mas é redundante, quando você ultrapassa alguns metros da última pessoa mais distante, você retorna para a outra ponta, como um círculo expansivo. Normalmente as Zonas Livres são utilizadas para aprendizados e práticas de exercícios, mas foram construídas nos tempos das guerras, uma época muito distante. Elas foram criadas e são protegidas pelos Reis do Vento, praticamente indestrutíveis. – Nazerith me olha e vê que não entendi muito bem tudo aquilo – Tudo bem, tire essa cara de quem viu uma equação matemática pela primeira vez. Vou te explicar agora um pouco do que você precisa saber pra começar a entender melhor as coisas.
- Mas primeiro, preciso comer alguma coisa, estou sentindo uma fome absurda. Tem algum fast food por aqui? O que vocês comem? – Perguntei inocentemente! Realmente eu estava com uma fome que jamais senti antes, o estômago saindo pela boca.
Nazerith riu alto, de forma assustadora, acho que ele não tinha muito controle sobre isso, ecoou e chamou a atenção de todos, que pararam pra ver por alguns segundos, e voltaram a suas atividades em seguida.
- Vou matar sua fome continuando o que eu estava falando...
Interrompi novamente:
- Você não entendeu? Eu sou capaz de devorar um urso com a fome que estou não vou prestar atenção em nada!
Agora bem mais sério e enérgico, ele me respondeu:
- Escute, você que ainda não entendeu, mas vai entender. Quanto mais discute comigo mais vai aumentar a sua fome. Quem renasce no Planeta dos Ventos se alimenta de conhecimento. Quanto mais você aprende, mais energia o cérebro cria durante o aprendizado para abastecer seu corpo. Seu cérebro nesse momento está aprendendo a fazer isso e seu corpo aprendendo a usar a energia do cérebro para transformar as moléculas de ar que você respira em água e em alimento, dentro de você. Quanto mais você evita a informação, mais fome você sente. Já está sentindo a diferença, não está? O corpo te mandando sinal de que está sentindo prazer, te deixando mais aliviado, mas te fazendo querer mais.
Era isso mesmo que eu sentia, como se estivesse realmente comendo. Eu precisava de mais daquilo.
- Por isso então tanta gente está aqui aprendendo, treinando, se aprimorando? Achei que tinha muita gente aqui mesmo para um povo que não está em guerra a muito tempo. – Coisas começavam a fazer sentido pra mim.
- Exatamente. Dentre os planetas do nosso segundo nível, os nascidos do vento são os mais temidos, os que nunca são desafiados, pois nos alimentamos de conhecimento e de técnica. Dizem que o próprio Criador sempre foi mais propenso ao elemento ar. Mas são apenas boatos. Os Reis do Vento dizem que ainda somos nesse mundo muito limitados e não conhecemos muitos dos elementos existentes no universo.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Capítulo 1 - A Solidão da Independência
Uma vez escutei num sonho alguém me dizendo que a felicidade está dentro de nós mesmos e que nós a aprisionamos. Confesso que demorei muito tempo a entender o que isso significava e me atentei muito mais as curvas do corpo e a doce voz da bela mulher que pronunciou essa frase ao meu ouvido, em meus sonhos. Sempre quis encontrar essa mulher, achava que como num filme ela pudesse ser alguém de outra vida que surgiria a qualquer momento em minha frente me encantando repleta de enigmas como uma sereia.
Depois de ter sofrido alguns duros golpes da vida e de ter perdido um pouco da ingenuidade de criança e do romantismo apaixonado de adolescente comecei a tentar procurar o que podia significar aquela frase de uma forma mais objetiva e apesar de ter chegado a respostas bem satisfatórias eu ainda sabia que faltava algo a ser descoberto.
Eu sentia que minha vida sempre me espreitou de longe pronta pra me apunhalar com golpes de espada e risadas soluçantes. Sentia-me um pássaro sem asas no meio de raposas selvagens.
Não, eu nunca estava satisfeito. Eu sempre queria mais, mas não como os outros. Não queria mais do mundo pra mim, queria mais de mim pro mundo, mesmo olhando pros lados e não sentindo fazer parte daquilo tudo.
E durante as guerras que enfrentei percebi que o mundo não se muda, as coisas são assim, começam e terminam dentro dos mesmos objetivos. A vida não é um desses objetivos.
Quanto mais pessoas nascem mais e mais a morte começa a ser um assunto corriqueiro, conversa de botequim, fofoca de donas de casa. A crise da fé muito confundida com a religião é um fator fundamental para tanto. O avanço científico fez com que os homens começassem a ter mais conhecimento do que não é verdade. Não conseguem jamais descobrir a verdade pois provar a mentira se tornou muito mais simples. A sociedade vai se transformando em um amontoado de deformidades sem razão de existência.
Talvez por isso que tudo acabou banalizado, perdeu o sentido. Talvez por esse motivo também ainda existam pessoas que se apeguem no que eu escrevo, quando falo da relação entre prazer físico e sentimento, da diferença sutil entre desejo intenso e vulgarização. Quando escrevo contos eróticos eu exporto meus sonhos e idealizações, mas eu vivo esses sonhos com tanta realidade, que faço eles existirem de verdade na mente de quem lê. Na leitura a gente sai do mundo de carne e osso e embarca dentro da nossa própria mente, num mundo criado por outra pessoa. O segredo do meu sucesso como escritor está na forma como eu permito que meus leitores gostem do que encontram em suas próprias mentes, mais do que do mundo real. Ou de como algumas coisas conseguem mudar a realidade e sair do imaginário, criar novas práticas, substituir antigos conceitos.
A praia é o lugar que mais me faz sentir o que escrevo e por incrível que pareça não é o barulho do mar que me causa essa sensação, mas a sua brisa, a forma como o ar se comporta em seu movimento. Parece que ele consegue saber o momento certo de ser suave e o momento certo de ser forte, o momento de te envolver e o momento de te jogar longe. Na praia nada impede a ação do vento, ele se comporta de forma natural, sem barreiras. E tudo isso por incrível que pareça me faz pensar. Penso no comportamento das pessoas e em como elas usam sua sensualidade nesse ambiente. Observar nos permite além de perceber coisas que jamais imaginaríamos, criar outras ainda mais inimagináveis.
E num dia como outro qualquer, ali sentado analisando e sentindo a praia como de costume, poucas pessoas ao redor, percebi uma mulher caminhando em direção ao mar, completamente vestida. Passos lentos, cabeça baixa, mãos trêmulas, não vi seus olhos, mas poderia jurar que estavam em lágrimas. Fiquei preocupado cada vez que ela se aprofundava mais. Quando num momento ela sumiu, confirmei minhas suspeitas, ela pretendia o suicídio, sai correndo em direção a ela.
O mar estava revolto, as ondas ficando cada vez mais altas e as águas com uma força incrível dificultavam muito minha chegada até aquele ponto. Eu não conseguia mais vê-la, mergulhava e voltava procurando, mas não a encontrava. Um salva-vidas que me viu correr, veio atrás e ficamos desesperadamente tentando localizá-la. A maré subiu muito rápido e quando já estávamos quase sem esperanças eu senti algo tocar minhas pernas. Mergulhei e ali estava ela, agarrei-a junto ao meu corpo e com a ajuda do salva-vidas a trouxemos de volta a areia.
Fiz o procedimento de ressuscitação mas ela não demonstrava reação. O salva-vidas assumiu meu lugar, continuou nas tentativas enquanto eu fui buscar socorro.
Já era tarde! Ela não ia mais acordar...
Como pode? Uma mulher linda, que parecia tão cheia de vida... o que teria feito ela colocar fim na própria existência?
Se eu tivesse me antecipado... se tivesse tomado a atitude de seguir meu instinto, minha intuição do que ela pretendia fazer...
Infelizmente o “se” não existe e o tempo não volta.
Aquela noite eu não dormi, lembrando cada detalhe do que aconteceu, cada movimento, tentando entender os motivos.
Ela não tinha documentos, identificação nenhuma, nada que pudesse dar resposta a todas aquelas perguntas.
Resolvi levantar no meio da madrugada e sair. Fui até um bar, pois nos momentos de inquietação a gente tende a acreditar que o álcool pode ampliar nossos horizontes sobre coisas impossíveis de entender ou aliviar a dor de não saber o porquê.
Depois de algumas doses de vodka com gelo e limão eu só pensava no olhar daquela mulher que eu não cheguei a conseguir ver.
Eu sempre considerei o olhar de uma pessoa o reflexo da sua alma, e eu não consegui conhecer aquela alma. Não conseguia me conformar com isso, como aquela vida esteve em minhas mãos e eu não consegui nem olhar em seus olhos.
Quando percebi que meus pensamentos iriam me obrigar a puxar um papel e uma caneta percebi um desentendimento acontecendo ao meu lado em uma mesa. Um homem muito alterado flagrou sua mulher ali aos beijos com outro homem. As pessoas tentavam conte-lo mas ele estava fora de si. Gritava a ponto das veias de seu pescoço quase atravessarem sua pele, as palavras que ele usava pra ferir parecia que estavam cada vez mais machucando a ele mesmo. Muitos tentavam controlá-lo mas ele era muito forte e derrubava quem vinha pela frente. Pegou a moça pelo pescoço e a ergueu, olhou pra sua cara de desespero e a soltou. Gostava demais dela para machucá-la. Então se voltou para o rapaz que desesperado se ergueu e apontou uma arma para ele. Todos ficaram imóveis e o barulho de toda aquela bagunça silenciou por alguns segundos eternos. Quando o homem traído partiu pra cima da arma com uma voadora, o tiro ecoou pelo bar e após o atirador ser dominado todos procuravam ver se alguém estava ferido, onde a bala tinha acertado...
Eu não percebi, não senti dor... só vi quando abaixei a cabeça e percebi minha camisa branca se tornar vermelha de sangue. Fui sentindo muito frio e um desespero de quem perdeu o controle dos movimentos. Todo mundo correndo em minha direção e eu cai.
Lembrei da minha mãe, de minha família, dos amigos, sim, eu vi minha vida toda passar em flashes.
E minha independência que lutei tanto pra conquistar naquele momento era minha total solidão. Eu sabia que não tinha jeito mais. O tiro tinha sido no coração eram poucos segundos pra morte.
Ninguém iria vir, nem família, nem meus fãs, nem a mulher dos meus sonhos que nunca viraram realidade.
O meu adeus não teria dono!
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